MAGENTA - CAFÉ FORTE

COMUNICAÇÃO
Primeiro dia no serviço, acostumando-me com a calça e a camisa enfiada dentro dela, não estou me sentindo lá muito bem. A cafeteria é bem bacana, tem um jeito que me agrada. A chefia entende que não tenho experiência, uma opressão a menos, pois já basta eu e os clientes me julgando. Sirvo café e lanches caros, que são bonitos de se ver, mas difíceis de engolir. É muito esquisito servir coisas que meu salário não alcança, mesmo ele me custando 8 horas por dia. Um absurdo.


"Café duplo na mesa 18"

Equilibrando a cafeína e os saquinhos de açúcar, isso tudo num pires com uma bolachinha rídicula de pequena do lado só pra deixar o procedimento mais complexo, levei meu 26° café duplo do dia. A água com gás transportei em separado, claro. Incrível como não fiz bobagem no trajeto dessa vez. Não derramei nada no chão. Fiz um "isso aí, Adalberto" bem discreto e de canto, quase com um soquinho no ar igual ao do Pelé. Passada a empolgação, vem a contenção

"Garçom! Poderia diluir o café pra nós?
Tá fffffforte"

Olhei com uma cara extremamente sincera de não entendimento. Num primeiro momento, influenciado pela surpresa do pedido,  não consegui achar no meu dicionário o verbo "diluir". Num segundo momento, quando apreendi o conceito, não entendi a razão pela qual fazer aquilo. Notei a incompreensão do outro lado também, como se me achassem um pouco limitado, um garçom como todos os outros, desses que entram na conversa dos clientes em "os garçons são todos iguais".

O café voltou ruim ao meu ver, mas a cliente gostou. Soluciono com mais açúcar quando é no meu o problema. Mas, né: cada um entende o seu café.
 
MAIS COMUNICAÇÃO
Hoje a espero. Fico ansioso pra chegar no serviço. Antes até passo gel no cabelo, única parte que ainda é minha, não é uniforme. Roupa igual, mas o cabelo sempre diferente na medida do possível. Ensaio o que falar, o que propor como início de conversa, talvez errar o pedido pra criar  uma situação engraçada. Não! Passo por bobo.

No início tinha como verdade o silêncio. Não querer nada. Ser profissional no meu canto, pois ela é cliente e eu garçom. Minha função é servi-la, não corteja-la. Esse meu profissionalismo durou alguns dias, justamente os que não a vi. Quando chega quinta feira, ela linda, linda, linda, linda, sempre me convence. Lembro da primeira coisa que a disse, já com ela me deixando diferente

"Oi, moça do diluído"

Um sorriso lindo, depois curvou-se encabulada, sem jeito. Linda. Era a terceira vez que a via na cafeteria e lembrei do primeiro pedido que fez, e isso a deixou feliz, pude notar. Senti-me muito bem por encabular alguém que me encabulava sem saber.

Esse carinho contido me faz bem. Ela vem sempre em grupo, semanalmente, e nossas conversas nos informam muito pouco a respeito um do outro. Duram o tempo de um pedido. Assim, na quarta visita, a menina do café diluído tinha nome e endereço. Na quinta era cheia de sonhos e dúvidas. Hoje é meu incentivo. Recolhe bolsa e casaco. Sorrimos. Olhinhos.

"Até semana que vem"
"Até semana que vem"
 

COMUNICADOS

Ela não veio mais. Ela não é mais servida por mim. Eu tinha pouco, mas tinha algo. Agora não tenho nada. O grupo como um todo não veio mais à cafeteria. Bom, fazer o que. Cinco e trinta. Vou indo.

"Oi. Estava passando por aqui. Saí da casa duma amiga"

Do nada surge bem na quina da esquina. Nunca a tinha visto fora do salão. Sinto-me nu longe da minha gravata, parado na calçada. Vi uma folha no cabelo dela. Eu a retiro. Impulsivo.


"Também vi que perdi o ônibus", penso alto.
"O que?", confusa.
"Perdi o ônibus. Passando agora atrás de ti. E agora só daqui um tempo", aponto e lamento.
"Eu to indo pra parada também. Te faço companhia", se prontifica.

Eu estou falando de mais. Feliz, afoito, contando coisas não interessantes, numa empolgação que nunca tive. Comecei com "onde tu mora mesmo?", passei pra "sarampo eu não tive", segui com "palmilha ortopédica custa uns 60 reais" e agora estou em "tenho que comprar uma bicicleta".

"Tu fala muito quando não tem que pensar no pedido que te fiz" afirma ela.

Fico sem jeito. Ela inverteu os papéis. Astúcia da menina. Audaciosa. Imediatamente peço pra sair com ela. Ela também fala pouco após o pedido. Fica sem graça com uma graça. Saíremos daqui um dia.
 
 
CONVERSAR
Segundo café de um. Bis acompanha. Relação em discussão após um mês de relacionamento. Saímos um bocado de vezes e agora a distância nos assombra, em muito porque não há a segurança da relação instituída. Estaremos longe um do outro por eternos 16 dias. Conversamos então sobre o que será

"Não quero forçar, mas também não quero passar a impressão de que não tenho interesse.
Tenho medo de prosseguir pois quero muito, mas não sei o que querer.
De tanto não sentir a vida ao meu alcance, acostumei-me enxergar o nada à minha frente.
Preciso que alguém me ajude, preciso de orientação pelo caminho..."

"...quase um mapa. Mas ao mesmo tempo sei que ter orientações é não ter autenticidade. Mas como lidar com isso? Sinto que és a pessoa, não sei se para sempre ou até o mês que vem. E, sentimento novo, vendo que és a pessoa, vejo que quero uma relação pois não posso deixar minha pessoa por aí sem mim. Minha pessoa não no sentido possessivo, claro"

"Claro. Não no sentido possessivo. Estamos então numa situação de ir ou ficar. Ir até onde a vida permitir ou entender o que tivemos como passado e seguir em outro futuro, não mais nosso, mas um teu e um meu. Eu quero ter um futuro contigo, seja lá qual for. Tu também pelo jeito. Mas sem pretensões que oprimam, daquelas do tipo "tem que dar certo". É isso?"

"Isso acho. Quero perguntar uma coisa: vais me abandonar quando tiveres alguma dúvida, insegurança, questionamento, receio? Vais, em situações tais, me ter como parte ou vais me ter como algo a ser arredado do caminho para que possas refletir ou crescer?
Mudei de foco rapidamente, saibas que sou assim"

"Abandono. Humm abandono físico é menos cruel do que esse que insinuas. provavelmente farei isso por não ter traquejo. Provavelmente vou fugir, como sempre fiz em situações semelhantes, não iguais. Bom ter tocado neste assunto, pois aviso: quando eu fugir, corre atrás de mim. Maior prova não há, pois no perdão, mesmo sem razão, é que se prova o quanto se gosta de alguém.
Sabia que o Tim Maia era assim? Ele perdoava sempre"

"Não sabia do Tim"

"É"

"Perdão. O perdão. O que é o perdão? A luta de perdoar. Difícil. O perdão envolve razão e orgulho.
Racionalmente se vê o que se tem pra fazer. Mas por orgulho se diz menos, se grita mais.
Correr atrás nada mais é que lutar contra meu orgulho em uma situação que faz ser racional correr. Eu não corro atrás. Eu não sou assim. Nunca vi motivo pra isso pois..."

"...isso já fiz. Corri o maximo que podia correr porque fazia sentido dentro da minha lógica.
Hoje penso que é começar errado. Sabe aquelas cenas de amor em filmes de praia quando a moça corre dum lado e o cara do outro? Esse é o certo!  Tu vê um deles parado enquanto o outro corre? Nããão"

"Discordo. Nem sempre os dois correm juntos ou pro mesmo lado"

"Mas só tem os dois na praia! Ou tem mais alguém nessa orla? Não tendo outra distração, correr para o outro lado não é uma coisa muito inteligente"
 
"E se achar que está sob ameaça? Risco de morte ou assalto?  Ou roubar o cabelo!
Cabelo?! O que eu to dizendo?!?!!
Enfim, não se apega a essa idéia de certo ou errado. Cada amor é um amor diferente e tem as suas próprias corridas.  Não interessa se é pro mesmo lado, pra lados diferentes ou escalando alguma coisa"

"Gosto da gente porque corremos atrás do ônibus. Corremos para chegar no mesmo lugar - a minha casa ou a tua. Não derivando de mais, voltando: não quero correr atrás por teres interesse em outros assuntos, pessoas, histórias, possibilidades, porque passa a ser sequestro de minha parte uma condição dessas, a de correr.

Já faço isso com meu gato.
Já basta. Eu corro atrás dele, ele me arranha. Pego-a força.
É uma droga. 5 minutos depois ele vem pro meu colo, me querendo como almofada"

"Não independentes, são egoístas mesmo. Tão egoístas quanto nós que não vemos o desinteresse deles quando os apertamos ou puxamos"


"É"

"Pois é"

"Vamos ficar sozinhos nesse tempo.
Não solteiros, mas sozinhos. Eu estarei só ao menos"

"Eu também. Acho que fará bem, pois independente de qualquer coisa, queremos o bem um do outro"

"Dias para colocar as ideias no lugar.
Dias mudando de opinião constantemente.
A distância é um risco que corremos, sabes"

"Pode vir o desinteresse. Pode vir a influência. Eu sei.
Mas pode vir a luz. O fortalecimento. Pode vir o sentido que queremos ouvir de nós mesmos.
Podemos pesar melhor as possibilidades. O que já passamos. O que queremos passar"

"Vem o ódio também. A raiva. O se importar porque se gosta"

"Talvez"

"É"

"É"

"Eu tenho tanto pra lhe dizer"

"Eu também tenho"

"Não consigo ouvir sem falar, muito menos falar sem ouvir.
Vou sentir uma agonia com essa minha mente fértil.
Com esse meu orgulho"

"Não fica imaginando coisa ruins, tá?
Fala comigo se imaginares, pois o silêncio corrói"

"Juro que falo"

"O que é isso tudo?"

Recordo de cada coisa dita, mas não quem disse o quê. Concluo muitas coisas, as repasso em minha cabeça e desrepasso. Discordo concordando, fico calmo me irritando. Não sei mais de quem foi a ideia de sair sozinhos estando acompanhados do mesmo pensamento. Ambos desconfiados com o que se mostra. Ambos arrependidos com coisas não ditas.

Eu fico pensando, depois, o que quanto as coisas mudaram em mim. O mesmo não sou mais. O mesmo nunca fui, diga-se de passagem, mas nesta passagem em específico o processo tem sido doloroso, lento, emocionante, enriquecedor, causando insônias, inconstâncias.

Ela vai embora.
Eu vou embora.

Sei que estará quando eu voltar.
Eu também estarei.

Pergunto-me se estaremos.
É para estar?
Não sei.
Saberei.