APRENDENDO O TAL AMOR

Aprendendo o tal Amor

Parte 1: O JARDIM MOSTROU
Parte 2: A MINA DO CONDOMÍNIO
Parte 3: MUSA PRIMÁRIA
Parte 4: REUNIÃO DANÇANTE SEM DANÇA
Parte 5: INTERIORANA
Parte 6: PLATONISMO DE SEGUNDO GRAU
Parte 7: RESERVISTA
Parte 8: ADÚLTERO
Parte 9: TECNICAMENTE
Parte 10: ENTRE NÓS A FORÇA QUE ME É ESTRANHA - PARTE I
Parte 11: ENTRE NÓS A FORÇA QUE ME É ESTRANHA - PARTE II
Parte 12: FACULDADE
Parte 13: CONCLUSÕES E PROJEÇÕES

 

Parte 1: O JARDIM MOSTROU
Esclarecido, disse-lhe que a professora não poderia saber.
"Não vou contar nada pra minha professorinha"
 
respondeu-me sorrindo bem menina, com aquele timbre esquisito de voz, um tanto quanto grave pra idade e gênero. Sorriu, curvou-se encabulada como alguém que ia fazer algo errado, tão errado. Tasquei-lhe um beijo, um selinho. Só pode ter sido um selinho, pois era o primeiro beijo da minha vida.
Olhos fechados.
Beijo.
Silêncio.

Beijo explícito em meio ao cenário inocente e violento do parquinho - na época não era popular o esnobe "playground". Quando voltei vi do nosso lado dois colegas, gêmeos por sinal, distraídos na caixa de areia ao fim do escorregador. Nem notaram nada eles.

A experiência talvez tenha me surpreendido mais pelo silêncio que fez do que por qualquer outra coisa. O beijo em si era novo, diferente, empolgante, mas o silêncio que ouvi quando fechei os olhos era mais do que tudo junto. Quando abri os olhos voltei de uma viagem. Não sei se meu cérebro preencheu com sensações genéricas tal lembrança, mas se preencheu, foi muito eficiente - tinha eu uns 6 anos.

A relação não teve futuro. Durou o tempo de beijar - uns 4 segundos. Rimos, depois saimos correndo. Acho que eu fui brincar de esconder, ela foi bater em alguém ou contar pra alguma colega. Típico.

Hoje não é muito diferente. Beijo as moças e brinco de esconder o que sinto depois.
Ótima essa sacada que encerra o texto, hein.


Parte 2: A MINA DO CONDOMÍNIO
No primeiro relacionamento fui mandante, um menino seguro. A "professorinha" nunca descobiru, o crime fora perfeito no parquinho. Entre nós, menina e eu, não havia complexidade, pois queríamos a mesma coisa. Queríamos ver como era aquilo. Vimos. Gostei. Tchau. Já na segunda vez, outra menina, outra perspectiva, outro cenário. Aconteceu no condomínio em que vivo há 26 anos, mais especificamente no estacionamento, fim de tarde.

Sofri pela primeira vez as podas da sociedade. Fui aliciado por uma mais velha - uns 5 anos a mais que eu - e sob observação de outras crianças, cúmplices atentos em vez de gêmeos distraídos, nos beijamos. Acho que fui o segundo da fila naquele dia cheio da sapeca menina.

"Tereza! O Renan beijou a (fulana) e colocou a língua", gritou uma das ruminantes  pra minha mãe

O beijo fora combinado, um trato feito em massa. Uma ressalva: deixar que ela encostasse os lábios, ficando eu imóvel. Sem mão na bunda, sem mão no cabelo, muito menos língua. Sem língua, Renan!

Não é que coloquei a língua!!??
Transgressor...

Soube das instruções depois apenas, ou seja, não fui instruído corretamente. Segui meu instinto e me passei. Fui execrado. Minha mãe soube. A menina foi chamada de puta. Eu levei sermão enquanto jantava. A lâmpada era incandescente. Clima tenso. Já sentia a dor das chineladas, mas não apanhei.

Enquanto no primeiro caso estávamos nivelados, donos do que nos acontecia, neste segundo eramos nós + terceiros + valores da sociedade. Não importava o que eu queria, o que ela queria. Eu era bobão, pedindo pra ser aproveitado, não importava tanto. Só era um gurizinho irresístivel mesmo.

Dessa segunda história destaco a massa feminina dizendo que eu havia metido a língua na guria. Parecia a inquisição. Pareciam uma pessoa só, aquelas pequenas feministas, unidas contra aquele homem que sai por ai metendo a língua. Onde já se viu?!!? Meninas inocentes mandando um gurizinho ficar imóvel, querendo apenas colocar a boca na boca dele, e o objeto - que não ficou imóvel!!! - resolvendo inserir tamanha promiscuidade que é a língua?!?!?! Joga na churrasqueira ele que tamo sem fogueira.


Parte 3: MUSA PRIMÁRIA
Aprendi na terceira série que tem umas que todo mundo quer, mas que só um da turma tem condições de pegar. A principal qualidade, neste caso, é a beleza. Nada mais. Na terceira série interessei-me pela mais bonita da turma, claro, e por muitas semanas sonhei e sonhei com ela. Fantasiava um namoro, abraços numa soneca depois da escola. Bem na época, no rádio tocava sem parar
Amor igual ao teu
Eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual
Que eu nunca mais verei
Amor que não se pede
Amor que não se mede
Que não se repete

(Amor Igual ao Teu, Cidade Negra)

A televisão me ensinara que o amor era algo muito bom, que a beleza era o principal sinal de identificação da  menina ideal e que no meio da paixonite toda tocaria uma trilha, a nossa música. Essa minha sensibilidade toda da época pode ser facilmente confundida com "pessoa extremamente suscetível às histórias teens da Sessão da Tarde", conclusão que pode estar muito da certa.

Lá fui eu falar com ela, depois de muito sonhar. Num ato de muita coragem, mandei um bilhete com uma simples pergunta, conforme figura ao lado. Facilitei, pois poderia fazer uma que a obrigasse a dissertar. As  dissertativas estavam na moda (nas provas do colégio: "Do que as plantas necessitam? Por que? Explique, comente, fale alguma coisa, ..."). Ela marcou "não" e ainda acrescentou "podemos ser amigos" do lado. A danada já sabia manter a pose naquela idade! A sapeca, sabendo que era a mais cobiçada, já tinha até resposta pronta.
Tempos depois ainda fiz nova tentativa. Aproveitei quando estavamos brincando de pular de classe em classe na sala de aula, ajoelhei-me e pedi
"Por favor, fica comigo"

Não tenho certeza mas acho que imendei ali um "eu te amo" meio desesperado, mas posso ter só pensado isso. Foi minha primeira dobra na vida e a única verdadeira, física. As outras que vieram foram mais "ceder algumas vontades", "compreender", "sacrificar-se em nome da relação". Senti vergonha daquele ato depois, mas fazia todo sentido na hora e mandei bem na atitude.

A idade avançando e ao longo das séries a admirava cada vez mais de longe, mas sempre focado. Não a quis quando entendi as regras do jogo: a plebe não fica com a nobreza. Havia um outro menino que todas gostavam e claro, com ela que ele ficou. Fazia muito sentido: o melhor com a melhor. E de fora -  essa é a melhor parte, pessoal - faziamos o policiamento dos que ousavam não sentir inveja dos dois. Do lado masculino era muito forte esse controle: a única aceita era ela, nossa musa, a top top.

As outras eram gordas, chatas, magras, normais, sem sal, burras, entediantes, egoistas, ranhentas, fedorentas, cheirosas de mais, e qualquer coisa que a musa não fosse. Isso durou uns dois anos acho.  Depois a personagem a menina mudava, mas o papel era o mesmo, assim como a resposta da platéia. Não havia chance de ascensão. Tu era dum jeito, relacionava-se com certas pessoas e ponto. A grama alheia sempre era mais verde. A escola foi a pior época da minha vida e esse "troço social" é responsável por 75% dos problemas daquela fase cretina, daquela juventude que só velho senil mesmo pra ter saudade.

Um dia a escola terminou, o segundo grau, o acordar muito cedo, tudo aquilo. Também terminou o gostar das meninas que todos gostavam, o brincar de matilha. Anos mais tarde estou eu com 19 anos, na praia de Magistério, e me chega a menina top top da minha infância. Estava junto de uma outra,  nossa colega na época até. O de praxe
"Oi, quanto tempo
O que anda fazendo por aí
Muitos anos não é mesmo"


Estava a mesma coisa, o mesmo rosto, cabelo. O corpo mudara claro, mas como na época a gente só pensava em boca, carinho e mão dada, fiquei apenas cuidando o rosto dela.

Convidaram-me para ir ao centro, porque elas iam lá depois e bla bla bla. Respondi "talvez", mas não fui. Eu não tinha companhia para ir. Na verdade tive medo de ir. Não era uma guria qualquer, mas a única por quem me ajoelhei até então. Além disso ela era tão perfeita naquela prateleira alta, inalcançavel. Prefeir manter a "platonice" em vez de qualquer outra coisa. Ainda: vai que eu me ajoelhasse naquela minha idade avançada. Capaz de nem me levantar mais. A outra versão possível, a mais possível e menos bonita, é eu não ter ido porque era meu jeito de dizer
"Agora não te quero mais"

O ruim de fazer terapia é que tu acaba sendo mais sincero contigo mesmo, cada vez mais difícil se enganar.


Parte 5: INTERIORANA
Eu costumava caminhar em grupo, eu e mais dois amigos, aqui pela volta do meu condomínio. Quase todos os dias havia a "ronda", as longas caminhadas num espaço pequeno. Era madrugada a dentro falando da vida que a gente tinha e, principalmente, da que queríamos ter. Os vizinhos até comentavam que aqui era seguro  a noite dada nossa eficiente vigilância. Sem intenção, vez ou outra ouvíamos a expressão dum orgasmo vindo das janelas fechadas. E vez ou outra alguns destes vizinhos ia pra janela fumar, o que nos rendia umas boas risadas adolescentes.

Certo dia, três meninas apareceram e nos assediaram - dentro dos parâmetros familiares de assédio - o suficiente para impedir nossas ronda. Nosso colega de maior lábia já saiu pegando uma delas após 20 minutos de conversa; meu outro amigo ganhou a outra; já eu e a que sobrou... bom, ficamos ali falando da chuva e do frio. Não teve clima.

Dias depois a menina que gostara do meu amigo - não o da lábia, mas o outro - disse que, na verdaaaaade, gostava era de mim mesmo. Após o choque daquele agrado todo que sem intenção eu causara, ficamos. E foi bom.

Tão bons aqueles três dias que se seguiram que lembro de ter falado pro meu amigo (o amigo trocado pela menina)

"Essa coisa do carinho eu nunca tive. Sempre quando fiquei foi frio.
Tá diferente com essa. Tenho medo de nunca mais ter isso"


Ele disse que eu teria sim, visto que com meus 14 anos pouco da vida tinha visto. Previsão não muito difícil, mas que me tranquilizou muito. A sensação de estar errado no medo me fez muito bem. Grande amigo aquele que, mesmo depois de ser trocado, ainda me tranquiliza.

O final do romance foi terrível e medonho. Durante o caso todo minha mãe demonstrara um ciúme idiota, um ciúme castrador. Em vez de dizer algo conservador que incentivasse minha masculinidade, tipo

"meu filho é garanhão.
Ainda bem que não é viado"


Ela dizia

"Ah, muito fácil mesmo pegar mulher assim.
Guriazinha do interior bobinha"


O ápice da coisa foi quando ela escondeu a chave, alegando que eu passava pouco tempo com a família. Essa bobagem durou uns minutos na primeira vez, mas na segunda ela foi competente. Trancado estava bem na hora em que a menina veio se despedir. Envergonhado de contar pra ela o que estava me acontecendo, acabei me despedindo friamente da janela do meu quarto. Terrível.

O carinho dela merecia mais.
E o ímpeto castrador da minha mãe merecia um chega pra lá.