segunda-feira, 4 de julho de 2011

Resenha da obra “Resumo de um Tratado da Natureza Humana” de David Hume

A abordagem. Salta aos olhos a motivação da obra, humilde e afim aos princípios socráticos de busca da verdade, o autor assume a ineficiência no que diz a universalidade não de suas ideias, mas de como as expôs. Então elabora um resumo acessível, não tão profundo mas muito esclarecedor - como se fosse uma ante sala aquela “obra pioneira”, como ele chama. Um tanto quanto arrogante ao tratar como importante e digna de um manual. O faz de forma anônima, tratando sua obra como de propriedade de terceiros, o que apazigua a aparente arrogância da construção do resumo.

A preocupação com a inteligibilidade do seu tratado é coerente com a aplicablidade da ideia. Ele faz uma crítica ao método de outros filósofos, que explanam longamente suas teorias e procedimentos metodológicos e pouco espaço reservam a associação com a realidade. Denuncia que os poucos exemplos de aplicabilidade de tais teorias a tornam inteligíveis.

Neste ponto me perguntei: é a filosofia pela filosofia que ele abomina? Critico muito isso no curso de licencitatura em Geografia, onde cada vez mais vejo Geografia pela Geografia, mergulhada em conceitos alienados da aplicabilidade e, o que mais me incomoda, alienados da escola. Quando exemplos simplórios são dados, aplicabilidades nada geinais, sinto-me até constrangido ao ver colegas maravilhados com o uso possível daquilo tudo.

O tema: A Natureza Humana.

"Podemos afirmar tranqüilamente que quase todas as ciências são compreendidas pela ciência da natureza humana, e dela dependem. A única finalidade da lógica é explicar os princípios e operações de nossa faculdade de raciocínio, e a natureza de nossas idéias; a moral e a crítica dizem respeito aos nossos gostos e sentimentos; e a política considera os homens enquanto unidos na sociedade e dependentes uns dos outros".

Ao entender o homem, se entende todas as ciências. Ao entender o que motiva ou desmotiva o homem entende-o o que move todas as ciências. É algo abrangente que embasa todo o seu tratado, uma afirmação forte e dramática e com sucesso nos provoca. Ao ler “quase todas as ciências são compreendidas pela ciência da natureza humana”, ficamos ansiosos por uma teoria avassaladora que sirva de curinga, pois explicar quase tudo.

A proposta que se segue aponta alguns conceitos como centrais, e mesmo não largamente explanados nos dão indicativos das intenções que o autor tem em sua obra completa.

A Percepção. Impressões e idéias são as espécies de percepção que temos. Percepção é definida como “o que quer que se apresente à mente”, seja por emprego de nossos sentidos ou pensamentos. Através dos sentidos temos a impressão. Enquanto que pela reflexão (aqui abstrações) temos a idéia. O que temos como vivido, a realidade que nos passa aos olhos são “nossas percepções fortes. Já as idéias são “percepções mais esmaecidas e fracas”.

Hume defende que tudo segue o fluxo “impressão – idéia”, e que nada pode andar por este sem que antes tenha sido pensado ou sentido em nossas próprias mentes. Mesmo que já existam, consideramos como idéias ou impressões inatas a natureza humana – aqui considero o ponto chave do texto, pois ele confronta inato de inato a uma figura, a um momento, e inato de inato ao ser humano.

“Pois é evidente que nossas mais fortes percepções ou impressões são inatas, e que a afeição natural, o amor da virtude, o ressentimento e todas as outras paixões, brotam imediatamente da natureza”.


Hábito. Em determinado ponto Hume usa Adão, aquele primeiro homem, como figura ideal para exemplificar sua teoria. Após longa explanação (nem tão longa se comparada a outros textos, mas longa dentro das intenções do resumo) usando uma mesa de bilhar como metáfora, a teoria a respeito de idéia e impressões é afirmada com o seguinte raciocínio: Adão não conseguiria prever que uma bola bateria em outra, pois não teria passado por tal situação anteriormente, logo a impressão precede sempre a idéia, e isso gera um hábito que embasa previsões. Hábito é “o futuro conforme o passado”, e sendo assim, é o hábito que conduz a vida.

“Apenas ele [o hábito] determina a mente, em todas as circunstâncias, a supor que o futuro é conforme ao passado. Por mais simples que este passo possa parecer, nem em toda a eternidade a razão seria capaz de dá-lo”

Crença. O hábito gera a crença de que o passado se repetirá. Podemos conceber resultados contrários, mas o hábito nos força a pensar que tal coisa é inconcebível. Hábito associado à crença resulta em razão?

“Quando uma demonstração me convence da validade de uma proposição, não apenas me faz conceber a proposição, mas também me dá consciência de que é impossível conceber algo contrário”

O que se seguiu não me foi lá muito compreensível, e por vezes li sem muito esforço. Pouco esforço foi resultado direto da incompreensão que se tornou hábito, gerando a crença de que não iria compreender o que se seguia.

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